SINAIS DOS TEMPOS – Por José Fernando Magalhães (24)

 

 

PROPÓSITO E IDENTIDADE

2ª PARTE

Entre Nós: O Ego nas Relações, na Cidade e no Mundo

Do Indivíduo ao Colectivo

 

O ego revela a sua verdadeira força, e fragilidade, não quando estamos sós, mas quando nos relacionamos. É entre nós que ele se expande, se defende ou se transforma.

ENTRE NÓS

Mas se esta jornada interior é complexa, torna-se ainda mais confusa quando saímos do isolamento da reflexão pessoal para o território partilhado das relações humanas.

O sucesso carrega consigo uma dualidade intrigante. Tanto pode revelar como dissimular a essência. Expõe talentos, mas também a forma como lidamos com o reconhecimento e a pressão. O ego saudável acolhe o sucesso com gratidão, o inseguro transforma elogios em testes.

Pode também levar-nos a representar papéis para agradar aos outros. Surge a síndrome do impostor, onde mesmo diante de conquistas prevalece a sensação de fraude. Em vez de celebrar, duvida, em vez de se expandir, contrai-se. A cura está em se religar ao valor intrínseco, àquele que não necessita de aplausos, e não à validação.

O ego não vive isolado. Manifesta-se sobretudo nas relações mais íntimas. Quando inseguro, procura controlar, prever, evitar surpresas, projectando medos no outro. Pode transformar o amor numa disputa silenciosa. Em vez de comunhão, procura superioridade.

A chave para transcender esse padrão está na entrega. Entregar-se não é ser fraco, é ser verdadeiro. É permitir que o outro nos veja sem máscaras, sem defesas, sem o verniz do ego. A exposição desarma-o e abre espaço para a autenticidade. Quando dois seres se encontram nesse lugar, nasce uma intimidade que não é posse, mas presença.

O ego que governa uma relação a dois é o mesmo que, multiplicado por milhares, determina o destino de uma comunidade. Os conflitos silenciosos entre pessoas, são as sementes das divisões visíveis nas ruas, nas assembleias e nas campanhas. A política, afinal, é apenas a psicologia humana ampliada até ao tamanho de uma cidade inteira.

A cidade é um organismo vivo, complexo, interdependente, vulnerável e resiliente. Cada cidadão é uma célula. Valores como confiança e solidariedade formam o sistema imunitário.

Movido pela vaidade ou pelo poder, o ego político propaga-se por discursos e narrativas polarizadoras, atacando a coesão social.

Quando movidos pela lógica do espectáculo, os meios de comunicação amplificam conflitos e ruído, favorecendo a emoção sobre a razão, criando um ambiente de constante alarme. Ao darem palco ao ego político, alimentam a ilusão de que o confronto é mais produtivo do que o diálogo.

O ego viral instala a suspeita, substituindo a boa-fé pela autopromoção. O organismo adoece, as decisões tornam-se reactivas e as políticas públicas perdem visão. Entretanto, o cidadão comum sente-se cada vez mais distante e impotente.

O ego que, ousa ser aliado do propósito e nunca da vaidade no plano individual, assume na esfera pública e colectiva uma dinâmica complexa. Onde o indivíduo é a célula, a cidade é o organismo, e a manifestação do ego, o vírus.

Nas interacções diárias, o ego tenta sobrepor-se. A culpa, seja do que for, é sempre do outro, seja no trabalho, na religião ou na política.

Em períodos eleitorais, sobretudo a nível local, torna-se particularmente visível a forma como o ego se infiltra. Nas candidaturas motivadas por vaidades e ressentimentos, transforma o espaço público em confronto, ofuscando o interesse colectivo. Se o ego saudável coopera, o ego enfunado compete, e essa diferença traduz-se, por um lado, em políticas que constroem, e pelo outro nas que apenas alimentam ambições pessoais.

CAMINHOS DE REGRESSO

Num mundo onde o ruído é constante e o ego se alimenta de distracções, as práticas de autoconhecimento são essenciais para regressar ao centro, à verdade interior e à ambição com propósito.

A meditação é um convite ao silêncio interior. Ao focar a atenção na respiração, num mantra ou simplesmente na presença, criamos espaços entre pensamentos, enfraquecendo o ego e reduzindo a reactividade emocional. O silêncio interno permite ouvir com mais clareza a voz do propósito e da intuição.

A reflexão permite-nos questionar motivações e distinguir entre os desejos do ego e as aspirações da alma, identificando padrões que nos afastam da autenticidade.

A conexão com o próximo sem esperar qualquer retorno, é transcender o eu, dando lugar à empatia e à interacção genuína. O impacto positivo importa mais que o reconhecimento.

Estas práticas não são apenas exercícios espirituais ou morais, são ferramentas de transformação. Elas ajudam a esvaziar o ego, a cultivar uma ambição que não fere, mas constrói, e a viver com mais coerência entre o que se deseja e o que se é.

E como reforçar a imunidade da cidade? Intensificando a educação para o pensamento crítico, a comunicação responsável e a liderança no lugar do comando, que são os anticorpos contra o ego colectivo.

A metáfora de que o ego é um “vírus” e a cidade um “organismo” não é apenas poética, é um alerta. Porque quando o ego se torna viral, a cidade deixa de respirar com liberdade e começa a sufocar com ruído.

Conclusão – O Sucesso que Não Cobra a Paz

Recordemos um ego consciente, o do jardineiro, que cuida das plantas e se dedica ao crescimento sem cobrar a essência de quem somos.

O verdadeiro sucesso não exige a paz como pagamento. A verdadeira felicidade não precisa de troféus para ser sentida, nasce do alinhamento entre quem somos e aquilo a que viemos.

Quando o ego se cala, ouvimos o chamado do nosso propósito. E quando vivemos com identidade autêntica, cada passo ganha coerência, mesmo que invisível aos olhos do mundo.

O ego pode ser um aliado, mas só quando está ao serviço do propósito, e nunca da futilidade.

Há em cada vida uma música silenciosa que não se mede em aplausos nem se escreve em diplomas. É o compasso secreto do que fomos chamados a ser, e, quando o seguimos, descobrimos que a felicidade não é um destino, mas a melodia que nos acompanha no caminho.

Se queremos cidades mais saudáveis e relações mais autênticas, precisamos de começar por nós mesmos. O momento de desarmar o ego e escutar o propósito é agora. E se o verdadeiro progresso não estiver em vencer debates, mas em transformar a forma como nos relacionamos? Que tipo de sucesso estamos realmente a construir?

“O ego procura ser especial. O Eu pretende ser verdadeiro.”

 

 

 

 

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